Eu vos farei pescadores de Homens

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EU VOS FAREI PESCADORES DE HOMENS - Lucas 5.1-11 

Janeiro de 1971. A festinha de aniversário na casa de dona Ruth Kuhn estava para terminar. Uma suave garoa molhava o chão e eu me preparava para ir embora quando ela, aproximando-se, convidou-me para o culto da mocidade. Fiquei perturbado com o convite, pois sempre tivera certo receio dos “crentes”. Não gostava deles! No fundo eu temia ser convencido a “mudar de religião”. Todavia, todas as tentativas para fugir daquele compromisso foram inúteis. Ela, evidentemente satisfeita, olhou-me nos olhos, e com um sorriso nos lábios falou: “José Taborda! Esse é um nome de pastor! Eu conheço um pastor com esse nome  e você também vai ser pastor!”

 

Estas palavras me impactaram tremendamente, ainda mais quando surpreendi mamãe orando por mim na madrugada fria, pedindo que Deus me salvasse, mudasse minha vida e me transformasse num servo Dele. Eu estava cada vez mais encurralado pela mensagem do evangelho. Jovens e velhos se uniram no esforço de me verem salvo. E Deus agiu poderosamente! Um ano e nove meses depois dobrei meus joelhos em rendição completa ao Senhor, sendo batizado em setembro de 1972.

 

Pouco tempo depois, nova mensagem veio impactar minha vida: “doravante serás pescador de homens!” Compreendi imediatamente a chamada ministerial. Meus pensamentos voaram ao passado trazendo-me à lembrança imagens da infância, do riozinho de águas claras e grandes pedras perto de casa. Lembro-me como se fosse hoje do primeiro peixinho que tirei daquelas águas límpidas: um cará prateado fora fisgado e eu o trouxera emocionado para fora da água. Deixei-o um tempo balançando no ar, saboreando a sensação agradável produzida por aquele momento especial. Sentia-me um menino realizado. Sensação igual só foi produzida anos mais tarde quando a primeira pessoa aceitou Jesus como seu salvador, por causa do meu testemunho. Garanto que nada pode igualar o sentimento de realização pessoal que nos invade a alma quando tiramos alguém do lamaçal de pecados e o colocamos nos caminhos de Deus. Sinto-me um pescador de homens!

 

Ganhar almas é um privilégio! Podemos nos considerar felizes pelo cumprimento da profecia de Jesus em nossa vida, mas, a questão é  a seguinte: sou um pescador porque tiro peixes da água, ou sou um pescador porque esse é meu trabalho, minha missão? Quando, após a pesca milagrosa em Genesaré Cristo afirmou que Pedro seria um pescador de homens, onde estava seu foco? No peixe ou no pescador? No ato de pescar ou nas características que podem ser observadas nos pescadores? Certamente o foco de Jesus não estava nos peixes tirados do mar. Ninguém pode ser chamado de pescador só porque tirou um peixe da água. Eu já tirei muitos peixes da água, mas não posso ser considerado um pescador por isso. Tanto o pescador de peixes como o de homens têm a missão de tirar o objeto de seu trabalho de seu habitat, mas aqui termina a comparação. Ao usar esta figura, Jesus não está fazendo uma apologia sobre a salvação, mas sim sobre a pregação.  A pescaria não representa a salvação pois tirar um peixe da água significa para ele a morte, enquanto que tirar o homem do lamaçal do pecado significa para a ele a vida eterna.  Estou certo de que o peixinho seria muito mais feliz nadando no rio do que pulando numa frigideira cheia de óleo quente. Ser pescador de homens é ter o privilégio de testemunhar de Cristo e do Seu evangelho a homens perdidos, mortos em delitos e pecados, dando-lhes uma oportunidade válida de aceitar Jesus mediante sua fé Nele e em Sua Palavra, recebendo assim a vida eterna.

 

Por isso creio que entenderemos melhor o significado de “pescadores de homens” se observarmos as qualidades dos pescadores e não os peixes. Que qualidades são essas?

 A primeira característica é a estratégia adequada. Para que a pescaria seja eficiente o pescador seleciona o equipamento necessário e também escolhe a isca própria para cada peixe. Semelhantemente, o evangelista deve estar devidamente preparado para realizar o seu trabalho (1Pe 3.15). Ele precisa elaborar métodos que sejam compatíveis com os diversos grupos humanos alvos da evangelização. Para isso é necessário conhecer-lhes a cultura, os costumes, a língua que falam, a religião que praticam. Para alcançarmos toda a criatura com o evangelho é importante decidir a quem iremos pregar: a doutores ou analfabetos, a idosos ou crianças, a operários ou patrões. Tudo isso influencia em nossa abordagem e também nosso preparo. 

A segunda característica do pescador é  paciência e determinação. Devemos saber que na tarefa evangelística, nem sempre o “mar está para peixe”. Notemos que os pescadores após uma noite de trabalho exaustivo e infrutífero não pensavam em desistir. Lavavam as redes para recomeçarem no dia seguinte devidamente preparados. Estavam cansados, mas não desanimados. É preciso ter paciência de pescador para podermos realizar bem nossa tarefa. Fico imaginando se as pessoas que me evangelizavam tivessem desistido de mim. O pastor da igreja dissera a meu melhor amigo que se afastasse de mim porque eu “era duro de coração”. Não fora a determinação daqueles crentes, eu não estaria aqui hoje. Usaram todas as estratégias que sabiam e que o amor podia criar para que eu chegasse a Jesus. A paciência não nos deixa perder o foco e a determinação nos permite ficar firmes mesmo quando o sucesso não vem.

 A terceira característica dos pescadores é o trabalho denodado. Mesmo cansados pelo intenso trabalho noturno não se negaram a voltar ao mar  quando Jesus lhes pediu (Lc 5.3). O trabalho é o foco, não o resultado. É possível que a falta de resultados visíveis produza uma sensação de fracasso, desanimo, desejo de desistir. O pós-modernismo evangélico cobra resultados, gera expectativas, cria ansiedades. Nunca imaginaria a mim mesmo trabalhando sem pensar no resultado. Todos nós queremos ser vencedores. Creio que é justo e humano, porém devemos ter em mente que o foco da evangelização não está na quantidade de pecadores convertidos, mas na pregação exaustiva do evangelho a tempo e fora de tempo. A conversão é apenas o objetivo do trabalho. O que fundamenta a ação do evangelizador é o trabalho denodado sabendo que o resultado é o Senhor que dá (ICo 3.5-9). Os peixes não saltaram para aquelas redes por causa da capacidade extraordinária dos pescadores, mas pela ação poderosa de Jesus. Entretanto, não fosse seu trabalho denodado, não veriam esta maravilha acontecer. Faça o que Jesus diz: “lancem as redes para pescar” (Lc 5.4), crendo que Sua palavra tem poder. A confissão de Pedro: “eu já estou cansado, trabalhei a noite toda sem resultado, não acho que tem peixe ali, mas sobre a Tua palavra lançarei a rede”, é muito significativa. Se Jesus manda, sempre podemos começar de novo! Não é fracasso sair do mar sem peixe. Fracasso é desistir de pescar. Devemos crer que os resultados não pertencem a nós, mas ao Senhor. Escutemos as palavras de Paulo: “...sede firmes e constantes, sabendo que no Senhor o vosso trabalho não é vão” (1Co 15.58). 

Finalmente, os verdadeiros pescadores não ficam esperando que os peixes caiam dentro do barco ou saltem para o frigorífico. Essa é uma atitude dos atravessadores, daqueles que se aproveitam do trabalho do outro esperando com isso obter vantagens pessoais. Jesus queria pescadores para a grande tarefa. Os pescadores de homens são pessoas comprometidas com a Palavra de Deus em sua integralidade. O apóstolo Paulo definiu muito bem isso quando disse: nós não estamos mercadejando a palavra da verdade. Devemos realizar nossa tarefa evangelística com inteireza de coração, não importando as circunstancias ou as condições. Quando Jesus nos deu a comissão, nada falou sobre nossas grandes possibilidades, mas sobre nosso grande trabalho. Trabalhemos com inteligência, com denodo, com perseverança, sabendo que alcançaremos o premio da soberana vocação que está em Cristo Jesus.