Reflexões/Artigos

O adultério envolvendo o pastor

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Há cinco anos fiz um trabalho em uma das matérias do meu curso de Doutorado em Ministério, falando sobre Aconselhamento de Pastores que caíram em adultério. Esse trabalho foi lido por alguns pastores que me pediram cópia e agora sugeriram que eu compartilhasse minha experiência em aconselhamento de colegas de ministério, uma vez que a leitura do trabalho foi útil para eles na prevenção, ao surgir o mais ínfimo sinal de que a tentação está batendo à porta. Como já tive a oportunidade, em vinte anos de ministério, de participar da disciplina de cinco pastores por causa desse pecado, e de ter acompanhado pastoralmente três deles, resolvi fazer uma adaptação daquele trabalho, colocando-o numa linguagem menos acadêmica e mais prática, visando atingir como público-alvo tanto os pastores (na expectativa de que tal matéria sirva de alerta e alento para as lutas pessoais que nós enfrentamos sozinhos em nosso íntimo, sem ter com quem compartilhar) como também as ovelhas (na expectativa de oferecer algumas sugestões de como elas podem “apascentar seu pastor” antes que seja tarde). Na época em que me foi solicitado escrever sobre isso, havia em nossa região um caso de disciplina de pastor, razão pela qual resolvi não tocar no assunto. Mas faço-o agora, aproveitando que o Senhor está nos concedendo um período de refrigério nesse tipo de tribulação. O conteúdo desse tema será dividido em cinco ou sete estudos, que vou tentar publicar semanalmente aqui em nosso blog, a fim de não se tornar uma leitura cansativa, e também para que você possa meditar em cada parte separadamente. A solicitação que faço a você, que estará lendo estes artigos, é que envie seu comentário ou dúvida usando o formulário de resposta deste blog, logo abaixo da mensagem.

INTRODUÇÃO: UMA DEFINIÇÃO BÍBLICA DE “ADULTÉRIO”

Escrever sobre um assunto tão triste é chato, mas é pior quando a gente fica sem refletir nos perigos que diariamente nos cercam. Um caso de adultério jamais se estabelece de uma hora para outra, mas o pecado sempre chega sorrateiramente até causar a queda. No caso de nossos pastores, a queda em adultério faz parte das maiores tragédias que poderia acontecer, pois afeta sua moral, seu trabalho e sua família. Seus sonhos e expectativas são abruptamente destruídos. Tudo que construíram em tantos anos de casamento agora sucumbindo sob intenso terremoto. Sua esposa e filhos sofrem um golpe duro, jamais imaginado. Mas o ato impensado do pastor que cai nesse pecado não agride apenas as pessoas que lhe amam. Agride também ao Deus que ama.

A preocupação de Deus com a fidelidade conjugal e tão forte que este assunto foi incluído como um dos dez mandamentos (Ex. 20.14). Desde o começo, no éden, a intenção de Deus quanto ao casamento foi estabelecida na criação, ao criar o homem e a mulher, tornando-se os dois “uma só carne” (Gn 2.24). Esta união foi também referendada por Jesus, ao interpretar, explicar e acrescentar à referência de Genesis: “De modo que não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19.6). O adultério é a infidelidade com aquela parte com a qual Deus nos ajuntou, tornando-se uma quebra do compromisso, não só com o cônjuge, mas principalmente com aquele que estabeleceu a aliança; tal infidelidade implica, ainda que momentaneamente, na separação do casal, mesmo que ainda vivam debaixo do mesmo teto. No caso da parte infiel não reconhecer e/ou confessar seu erro, ainda assim a quebra do compromisso é algo que, diante de Deus, caracteriza a infidelidade para com ele.

Gary Collins explica que a palavra “adúltero” é empregada na Bíblia para se referir a adoração de ídolos e infidelidade a Deus (Is 57.3; Jr 3.8; Ez 23.43; Tg 4.4; Ap 2.20,23), e para se referir ao intercurso sexual da pessoa casada com outrem além de seu cônjuge (i.e., sexo extraconjugal). Em ambos os casos, o adultério é proibido e fortemente condenado (Ex 20.14; Lv 18.20; Dt 5.18; 22.22-24; Mt 9.3-12; Jo 8.4). Também mostra que o apóstolo Paulo usa diversas vezes uma lista de comportamento perverso, nas quais inclui o adultério e fornicação, juntamente com “imoralidade”, “impureza”, e “homossexualidade” (I Co 6.9, 10; Gl 5.19,20; Cl 3.5). “É importante notar que a ira de Deus cairá sobre os que praticam tais coisas. Deus claramente não considera como superficiais as intimidades sexuais físicas fora do casamento” (Gary Collins, Aconselhamento Cristão. São Paulo: Vida Nova, 1984, pág. 244).

Além disso, temos ainda outro ensino significante, que é o de Jesus, no sermão do monte, fazendo uma interpretação do sétimo mandamento, e, numa época bem longe da Internet, fala do “adultério virtual”. Jesus mostra que diante de Deus até mesmo a intenção impura é algo abominável ao Senhor, e considerado por ele como adultério. “No Sermão do Monte, Jesus fala acerca do sétimo mandamento (Mt. 5:27-28; cf. Ex 20:14; Dt 5:18). No reino de Deus que começa a raiar, o adultério é um pecado que revela que o coração da pessoa é apegado ao homem, e não a Deus. Aos olhos de Deus, o olhar cobiçoso e o pensamento da concupiscência são contados como o ato completado” (Colin Brow, Ed., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1981, Vol. II, pág. 378). Esse alerta de Jesus é de extrema relevância, uma vez que todo adultério consumado fisicamente nasce no coração quando as circunstâncias conduzem os que são tentados, levando-os a situações cada vez mais comprometedoras, até chegar num ponto quase irreversível.

Nos diversos casos que tive oportunidade de tratar pastoralmente, o pecado só aconteceu porque os pastores em questão não prestaram atenção aos indicadores e evidências de que alguma coisa estava saindo do controle. Em outras palavras, partindo do pressuposto de que ser tentado não é pecado, começaram a apreciar a tentação, e foram gradativamente baixando suas defesas. Ao fazerem isso, perderam a noção da gravidade deste pecado diante de Deus. Apesar de ensinarem suas ovelhas e de terem participado na igreja de diversas disciplinas de pessoas por adultério, com o passar do tempo e por sua própria situação, foram mudando seus conceitos na tentativa de amenizar a gravidade de seu pecado e justificar um comportamento perigosíssimo para sua pureza pessoal. A exceção à regra (de que o pastor que cai em adultério ameniza a gravidade de seu ato) traz para o pastor um peso interior ainda maior. Refiro-me à situação de um colega pastor que sabia e era consciente de tudo isso, mas ainda assim caiu. Seu coração era mais amargurado porque quase não podia acreditar na “burrice” que havia feito, mesmo tendo plena consciência de cada passo que estava dando. Chegou a achar, por isso, que seu erro era imperdoável e inalcançável pela graça de Deus.

Ao concluir essa Introdução ao nosso assunto, deixo diante de Pai Celestial minha intercessão; primeiro por mim mesmo e meus colegas pastores, a fim de que na sua imensa misericórdia o Senhor nos conceda a honestidade suficiente para diagnosticarmos os riscos que corremos ao lidar com nossas fraquezas e tentações; oro também por nossas famílias, que fazem parte de nossa vida e ministério. Também oro pelos líderes e demais ovelhas a fim de que Deus lhes conceda a visão de que seu pastor é homem e, como os demais membros da igreja, também carece de pastoreio e acompanhamento “pastoral”. Aliás, por causa da natureza de seu trabalho, seu pastor está muito mais exposto a situações de tentação que os demais membros da igreja. Mas esse assunto fica para o artigo da próxima semana. Por enquanto, medite sobre o conteúdo deste artigo, e envie sua contribuição para ser publicada aqui.