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Cuidar é preciso: a pessoa do pastor/pastora
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Matéria publicada no LT n° 924 - Mês de Junho de 2011, de autoria de Roseli M. Kühnrich de Oliveira, abaixo identificada. Destaque à figura do pastor / pastora, cujo dia é comemorado no segundo domingo do mês de junho - A questão do cuidado aos cuidadores tem sido objeto de estudos recentes. No contato com a sociedade em geral, os religiosos – que fazem parte do grupo das profissões de ajuda – são procurados por pessoas ou famílias em dificuldades para aconselhamento ou consolo. Disto resulta uma grande rede de apoio e faz, do trabalho pastoral, um dos maiores sistemas de prevenção de saúde mental. Por ser gratuito, no Brasil, torna-se acessível a todas as camadas da população.
No entanto, há visões distorcidas e idealizadas da figura pastoral, pois os religiosos, muitas vezes, não são percebidos como pessoas comuns, mas como semideuses, não sujeitos ao cansaço, enfermidades e irritações. O poder pastoral a que são expostos, as questões do tempo familiar e pessoal, as demandas da comunidade religiosa, na qual se inserem, podem gerar estresse, visto que manter a imagem idealizada ou mostrar-se como ser humano envolve tensão e ansiedade.
A experiência de 30 anos de escuta, realizada durante minha atividade clínica, inclui o acolhimento de pastores/pastoras evangélicos e suas famílias, e entre outras categorias de religiosos, irmãs e padres. Também como professora de cursos de Teologia, percebi que havia alunos lutando com dores de alma não resolvidas e travestidas de questões teológicas.
As atividades pastorais produzem alternância de sentimentos e de emoções que nem sempre são trabalhadas adequadamente. Elas podem acabar por desumanizar, por tornar rotineiras ou insípidas as relações consigo mesmo, com a família, com a comunidade e com Deus.
A graça de Deus é o anúncio de que Deus é alguém que se importa conosco. Somos “carentes da graça de Deus”, literalmente. Precisamos mais do que nunca, de uma Igreja que anuncie Boas Novas: “há alguém que ama e tem cuidado de mim mesmo que nunca tenha me dado conta.” Pastores solitários “não cuidados“ transmitem palavras. No entanto, o cuidado é uma atitude, frente a si e ao outro. Como cuidar se não se é cuidado?
Os pastores/pastoras, com frequência, são cuidadores não cuidados. Alguns, porque não dispõem de tempo e recursos materiais, relacionais ou profissionais; outros, por não conseguirem se administrar. Os que formaram um terceiro grupo, por não se darem conta do desgaste existente, em função de estarem fazendo o que gostam, mas sem repor as energias perdidas.
O desgaste laboral
Todas as pessoas sofrem algum tipo de estresse, seja qual for a atividade exercida, contudo, o estresse crônico pode resultar em graves enfermidades físicas e emocionais se não for tratado. Um dos primeiros a estudar os fenômenos relacionados à Saúde Mental e fé foi Anton Boisen, considerado o “Pai da Psicologia Pastoral”. Sua própria crise de desorganização emocional o levou a estudar a relação da religião com a medicina; em particular, a psiquiatria.
Outro expoente desta linha foi Viktor Frankl o fundador da Logoterapia, que vivenciou também sua crise: foi confinado aos campos de concentração mesmo sendo já um psiquiatra. Descobriu que pessoas que tenham uma razão para viver resistem mais. A fé religiosa dá ao ser humano a esperança, como bem descreveu Jürgen Moltmann em Teologia da Esperança.
A exaustão
Um dos principais efeitos provocados pela repressão da emoção é o esgotamento psicológico. Parte desta fadiga é atribuída à árdua natureza de seu trabalho, mas parte dela é devida à necessidade de negar constantemente suas emoções para adquirir objetividade e distanciamento no exercício da profissão. Talvez porque acreditem ser preciso suprimir determinados aspectos da sua natureza e assumir uma postura reprimida e “profissional” durante a maior parte do tempo.
Ter uma visão integrada do ser humano no sentido de englobar aspectos das dimensões bio–psico-sócio-eco-espiritual é fundamental. O cuidado integral envolve o emocional, o cognitivo, o corporal, o espiritual e o ecológico dentro do contexto social. Cuidar de si mesmo é parte do processo.
O descanso
Pastores também precisam de descanso e alguns se encontram declaradamente exaustos. Neste caso, os recursos espirituais se tornam mecânicos ou sem sentido. Vivendo num mundo ativista, é necessário encarar o ócio como sagrado, como o shabat,praticado pelos judeus comoo dia do descanso. Pode ser em qualquer dia, mas é necessário entender o descanso como criação de Deus!
O objetivo de meu trabalho é escutar e estimular o cuidado aos cuidadores através do acompanhamento integrado e multidisciplinar, de modo que tenham mais qualidade de vida. Sendo o tema do cuidado aos cuidadores das relações de ajuda bastante amplo, espera-se que outros estudos tragam novas contribuições.
Mas, o que a igreja local e a denominação podem fazer? Primeiramente, orar e amar seus pastores/as, tratando/as como pessoas.Dar-lhes um salário condizente com as demais exigências legais e plano de saúde. Oferecer oportunidades regulares para ficar uns dias longe, participar de congressos e retiros, ajudando nos custos. (Como assim, o pastor não está? Foi orar?!) Reservar uma mesa (e pagar!) num restaurante, no dia de seu aniversário, ou de casamento. Faça por eles/elas o que voce mesmo apreciaria. Principalmente, exercitem a comunicação. Vejo muitas pastores/as que tem medo dos membros e vice-versa. Como se pode pastorear assim?
Mas, o que a igreja local e a denominação podem fazer? Primeiramente, orar e amar seus pastores/as, tratando/as como pessoas.Dar-lhes um salário condizente com as demais exigências legais e plano de saúde. Oferecer oportunidades regulares para ficar uns dias longe, participar de congressos e retiros, ajudando nos custos. (Como assim, o pastor não está? Foi orar?!) Reservar uma mesa (e pagar!) num restaurante, no dia de seu aniversário, ou de casamento. Faça por eles/elas o que voce mesmo apreciaria. Principalmente, exercitem a comunicação. Vejo muitas pastores/as que tem medo dos membros e vice-versa. Como se pode pastorear assim?
A formação teológica
Observamos que, em geral, os cursos de Teologia preocupam-se em formar e capacitar pessoas para ministrar a Palavra de Deus, contudo, o treinamento aos seminaristas deveria incluir a eles mesmos, como pessoas, primeiramente. Ajudar os futuros pastores a enxergar a pessoa com um todo (e não só as necessidades espirituais) já é um avanço, mas aprender a olhar para si mesmo, a enxergar a própria finitude e limitação, é bem mais difícil... E depois, deveria propiciar o contato com enfermos, prisioneiros, excluídos em geral, além de membros da igreja. Com isto, podemos ajudar a tornar reais os conceitos abstratos obtidos em sala de aula, tais como culpa, perdão e graça.
Por ocasião da minha pesquisa para o mestrado, fiz algumas entrevistas, coletando dados. Transcrevo aqui duas: com um pastor experiente e com outro mais novo no ministério.
- Ant
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