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Uma Trajetória de Crescimento PDF Imprimir E-mail
Escrito por Claudio Miranda   
Ter, 24 de Março de 2009 18:45

1Co 13.11-13.

Vivemos no tempo da velocidade e do instantâneo. Tempo em que o crescimento é um imperativo, e não uma opção. A máxima de nosso tempo é: “cresça, e apareça!” Vivemos num contexto em que o maior engole o menor, e crescer é questão de sobrevivência. Essa competitividade gera um tipo de crescimento nada saudável, em que todo crescimento implica em aniquilamento do outro. 

Se o meu crescimento implica em “apequenar” o meu próximo, não seria ele imoral? Sim! Todo crescimento em detrimento ou prejuízo alheio é imoral, e isto porque não observa a excelência do amor ágape. Paulo fala de crescimento no contexto do amor. É ai que ele deve florescer e produzir os seus melhores frutos.

Entretanto, o que vemos é muito deslocamento, mas pouco crescimento. Trajetória de crescimento, é o deslocamento de um ponto inferior a um ponto superior. O simples movimento não significa crescimento. A movimentação tem sido intensa, mas o verdadeiro crescimento, escasso!

Como sabemos se o que está acontecendo conosco é crescimento ou mero deslocamento? Um critério infalível, é ver quanto de 1Co 13  habita nosso ser. Partindo deste texto, compreendo que o verdadeiro crescimento implica em uma trajetória que me leve:

 

I.              Da Infantilidade à Fase Adulta

 

Toda trajetória de crescimento segue esta senda: começa na infância e se dirige ao estado adulto. Não há nada de errado em se começar pequeno. Paulo reconhece que houve um tempo “quando eu era menino”, um tempo em que lhe ficava bem agir como menino.

Ninguém pode achar ruim quando uma criança age como criança. Uma criança agir como criança é algo apropriado, e até engraçado! Rimos e nos divertimos com coisas de criança, quando feitas por criança. Estas mesmas coisas perdem a graça quando feitas por um adulto: “logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino”. O mesmo pai que se encanta com as travessuras de seu “pequeno”, é o que vai xingá-lo depois para que tenha atitudes de homem. Esse pai não é incoerente por agir assim. Cada coisa deve ser a seu tempo. Chegou a hora de fazer a transição: o menino deve ir “embora” e ceder lugar ao adulto.

O problema é quando permanecemos no jardim de infância por tempo demasiado! Um dia temos que acabar com as coisas de menino. Temos que ter coragem para começar a viver no mundo de gente grande, onde as “coisas de menino” são meras lembranças do passado, de um tempo que se foi.

Com isso, quisemos dizer que chega um tempo em que devemos encarar a vida cristã com maturidade. Não se trata de envelhecer, mas de amadurecer! Não se trata de ganhar rugas na testa, ou cabelos brancos, mas de procedimento adulto! Um dia o cristão tem de ver suas decisões e atitudes se tornarem mais refletidas; um dia, precisa perceber que suas reações já não são de menino mimado, que pensa que tudo e todos existem para fazer-lhe as vontades; precisa chegar a descobrir que nem tudo é seu ou para si. Deve chegar um tempo em que o cristão se torne mais pronto a dar do que receber, a servir do que ser servido. O sinal de que cresceu, é o senso de responsabilidade com outros. O homem maduro é provedor, e não vive reclamando provisão para si mesmo. Ama a Deus pelo que Ele é, e não pelo benefício; ama o irmão pelo simples fato de ser irmão, e não pelo que possa ganhar com isso.

 

 

II.            Da Obscuridade à Clareza

 

Um crescimento espiritual saudável, necessariamente, deve me levar a compreender as coisas de Deus mais claramente. Neste sentido, crescimento é luz nas minhas trevas, é crescer “na graça e conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”.

 

1.     Vendo de maneira obscura

De certa forma, é assim que todos nós começamos na vida cristã: vendo de maneira obscura. Mesmo quando se trate de mentes brilhantes, que saibam de muitas coisas, só começam a enxergar as coisas espirituais depois de se abrirem à graça reveladora do Espírito Santo (1Co 2.12-16). Repetidamente eu ouço pessoas que começaram a andar com Jesus dizerem: “eu ainda não entendo direito às coisas, eu leio a Bíblia, mas não consigo entender!” Há uma certa agonia nelas, como se já devessem estar entendendo, então lhes informo que é absolutamente normal. Foi assim que todos começaram: sem entender direito, vendo “como por espelho, por enigma”.

Em um sentido, sempre será assim: o ver humano sempre será um “ver obscuramente”. Quando Paulo diz que “agora vemos em espelho, de maneira obscura”, era já um homem maduro na fé. Já havia escrito boa parte do que nos deixou, mesmo assim admite que enxerga obscuramente, e que essa vidraça só deixaria de estar embaçada em um tempo que não era aquele em que estava vivendo.

No que nos diz respeito, nossa melhor compreensão das coisas espirituais, está sempre no futuro. O amanhã é o revelador daquilo que o “hoje” insiste em esconder. Isto significa que hoje “conheço em parte”, e que meu destino é ir vendo, lentamente, essas névoas dos meus olhos irem se dissipando. Ou seja: nunca seremos “senhores do saber”, ou pelo menos de todo saber! 

 

2.     Ampliando a visão e conhecimento

Se, por um lado, nunca veremos as coisas espirituais em plenitude de conhecimento, por outro, há uma ampla trajetória de “revelações parciais” que podemos percorrer. É ai que nossa caminhada deve ampliar horizontes. Se não posso chegar ao “topo do mundo”, ainda posso subir a montanha para ver o que há além dela. Isto significa que posso ampliar minha visão e conhecimento das coisas espirituais.

O escritor aos Hebreus reclama de seus leitores, por haverem se tornado tardios em ouvir, em entender as coisas mais profundas (Hb 5.11). Ele tinha coisas mais substanciais para tratar, mas seus leitores não estavam à altura de tais assuntos. “Vocês já deviam ser mestres, pelo tempo decorrido”, reclama ele (Hb 5.12-14). Muitos de nós não percebemos o tempo passar, mas ele passou. Perdemos a oportunidade de nos instruirmos nas coisas de Deus. Já devíamos estar ensinando, e ainda estamos no jardim de infância. Nos fizemos “tais que necessitam de leite, e não de alimento sólido”.

 

3.     Falamos sabedoria entre os aperfeiçoados, 1Co 2.6-13

Hoje se tornou difícil tratar de alguns assuntos com a igreja. Determinados temas, simplesmente não podem ser abordados num culto normal da igreja: “exige um público específico”, dizemos. Nossas pregações de “culto público” se restringem ao “leite” - comida para crianças- porque não estamos ainda “experimentados na palavra da justiça”. Isto tem sido assim, porque “o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal” (Hb 5.14). Enquanto isso continuamos, dominicalmente, distribuindo mamadeiras.

Mudando de metáfora, o conteúdo de nossas pregações, que prometem bênçãos de todo tipo: cura, emprego, prosperidade... mais parecem distribuição de pirulitos e caramelos, do que um convite ao crescimento em conhecimento das coisas de Deus. É como se estivéssemos dizendo: “se você se tornar cristão, olha o que você ganha!” Com essa pregação estamos expulsando o conhecimento das Escrituras de dentro da igreja, para que procure abrigo nas escolas teológicas. Ali, muitas vezes, ele se torna discussão árida e diálogo de “experts”. A Palavra tem de reencontrar seu lugar no culto. Seu lugar é no seio da Igreja, ensinando e instruindo os crentes na santa vontade de Deus. Devemos ansiar pelo dia em que poderemos “falar sabedoria entre os aperfeiçoados”. Paulo nos lembra que nós recebemos “o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus”, 1Co 2.12. E, uma vez que este Espírito opera em nós para conhecermos mais de Deus, Paulo diz que destas coisas “também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais”, 1Co 2.13. A Igreja deve ter e ser esse espaço onde se fomenta o “falar sabedoria entre os experimentados”. 

 

4.     A “Vereda do Justo”, Pv 4.18  X  o “Caminho do Ímpio”, Pv 4.19

Finalizando este tópico, vale salientar o que nos ensinam os Provérbios sobre a vereda do justo, comparada com o caminho dos ímpios.

O caminho dos ímpios é comparado ao caminhar na escuridão, onde se tropeça e nem se sabe no que se tropeçou. A vereda dos justos, em contra partida, é como um amanhecer, que vai se tornando cada vez mais claro, até tornar-se dia perfeito. No começo, são apenas alguns raios de luz, mas não será sempre assim! À medida que vai seguindo, a luz da aurora vai brilhando mais e mais, e a obscuridade vai dando lugar à clareza.

 

 

III.           Da multiplicidade de Motivações à Exclusividade do Amor

 

Quando nos convertemos a Jesus, queremos recuperar o tempo perdido. Muitos sonhos e sentimentos habitam nosso ser. Queremos “fazer e acontecer pra Jesus”. Estas motivações são genuínas, não são más em hipótese alguma. São reações de gratidão e alegria por aquilo que Jesus fez no interior, são expressões das melhores intenções de um sincero cristão que acabou de descobrir o céu ainda na terra.

 

1.     Partindo de todos os dons.

Tudo começa com o exercício dos dons. E, eles são muitos! Temos várias listas deles no Novo Testamento. Todos eles concedidos pelo Espírito Santo, e úteis para a edificação do corpo de Cristo. Em 1Co 13 Paulo cita apenas alguns deles, para exemplificar, e logo passa a mostrar que há algo ainda mais excelente do que estes dons. Paulo não desqualifica o uso desses dons, mas anuncia que há um caminho mais excelente, e então passa a falar do amor.

 

2.     Chegando a um ponto em que tudo se resume no amor.

O que Paulo está querendo dizer, é que nossa trajetória de crescimento espiritual deve nos levar a um ponto em que tudo se resuma no amor. Ele diz “havendo profecias, cessarão; havendo línguas, desaparecerão; havendo ciência, passará”. E, então, acrescenta: “Agora permanecem a fé, a esperança e o amor, MAS O MAIOR DESTES É O AMOR”.

 

3.     A excelência do amor

Para Paulo, e também para nós, o amor é ponto culminante onde devemos chegar. Partimos de uma multiplicidade de motivações, mas um dia teremos que chegar a um ponto tal, em que tudo que fazemos só tem uma motivação: o amor. Isto quer dizer que já não prego porque gosto, mas por amor; já não canto porque me dá prazer, mas por amor; e, exercito todos os meus dons como uma expressão do meu amor pelo Senhor.

 Lembre-se: o amor é:

a.     Mais excelente que os dons

b.    Mais excelente que a ciência

 Você só pode dizer que sua trajetória é de crescimento se: ao longo do percurso você está amadurecendo; se você está adquirindo sabedoria nas coisas espirituais; e, se os seus motivos estão, cada vez mais, centrados no amor, expressão maior de crescimento espiritual.

  

Cláudio Miranda

Santa Maria, Abril/2006

 

Última atualização em Ter, 24 de Março de 2009 19:55
 

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