O Ministro em Fraqueza
“Chegando ela, pois, ao homem de Deus, ao monte, pegou nos seus pés; mas chegou Geazi para retirá-la; disse, porém o homem de Deus: Deixa-a, porque a sua alma está triste de amargura, e o SENHOR me encobriu, e não me manifestou”, II Reis 4:27.
É preciso refletir sobre o modo como o ministério contemporâneo tem ministrado aos aflitos de seu tempo.
Temos aqui uma mulher sofrendo uma das maiores dores humanas: a de ter que sepultar seu próprio filho. Nenhum pai, nenhuma mãe deveria ter que enterrar seu próprio filho. Esta mulher não disse nenhuma palavra, mas externou sua profunda amargura de alma. Agarra-se aos pés do homem de Deus, fazendo dele sua única esperança na desesperança.
Eliseu tinha aqui uma excelente oportunidade de explorar a dor daquela mulher, mas não o fez. Muitos dos que ocupam o púlpito aproveitariam esse momento para uma "profetada", para trazer uma revelação, ministrar libertação ou cura interior... e assim, demonstrar que está no controle da situação.
A "concorrência" hoje exige que o ministro seja eficiente, ele não pode ser fraco. E assim, os homens de Deus de hoje, não gostam de parecerem que não têm "a solução", que não possuem o poder de exorcizar todos os males.
Aliás, essa mulher seria alvo certo de exorcismo! Preocupados em não se demonstrarem desentendidos no assunto, muitos se apressariam em nomear o demônio que essa mulher carregava; sua tristeza de alma ganharia status de entidade demoníaca, fazendo de uma mulher atribulada, uma mulher endemoninhada.
Quando atribuímos uma expressão autenticamente humana a uma manifestação demoníaca, demonizamos a humanidade, pecamos contra o humano, e demonstramos o quanto embrutecemos: ao ponto de não podermos entender a expressão genuinamente humana daqueles que compartilham conosco a condição humana.
Ministros assim brincam de semideuses. Aparentando não estarem sujeitos aos males que habitam os demais seres humanos, alimentam uma falsa onipotência.
Eu gosto profundamente de Eliseu aqui: sem afetar onipotência, se permite ser ministro em fraqueza. Ele não tem problemas em admitir que não teve nenhuma revelação, que está sob o véu da escuridão; e, por que não tem o controle da situação, se inclina para escutar os gemidos da alma sofredora da mulher. Ministros não têm que serem semideuses: precisam ser apenas humanos, e como tal penetrar as dores humanas.
E que tal Paulo? Acostumado com manifestações de poder, um dia descobre um espinho em sua própria carne: um mensageiro de satanás a lhe esbofetear a alma. Depois disso, ele conheceria ainda o poder... mas em fraqueza. Aquele freio de Deus na vida de Paulo estaria sempre ali para lembrá-lo de sua impotência, e que ele era ministro em fraqueza. Na insuficiência humana conheceu a suficiência da graça de Deus. A única forma de ministrar legitimamente aos sofredores destes tempos, é penetrando em suas próprias dores, sem medo de admitir que somos habitados pelos mesmos males, e só por isso nosso ministério ao mundo é legítimo, ainda que em fraqueza.

